IDEAK
O mérito e as doenças
Diálogos com o professor Transcrições

O mérito e as doenças

Resposta de Cosme Massi* em estudo virtual do IDEAK.
Transcrição de Rui Gomes Carneiro.


Participante: Nesse estudo, o Professor disse que o merecimento se dá pela virtude, há merecimento quando se age virtuosamente. E nos lembrou que fazer o bem e fazer virtude são coisas distintas, pois o bem pode ser feito com interesse, mas a virtude só existe quando a ação é realizada desinteressadamente. Fazer o bem é uma coisa; agir virtuosamente é outra. Mencionou ainda o óbolo da viúva como ação virtuosa: ela renuncia a si mesma em benefício do outro, de forma desinteressada. Minha primeira dúvida é se merecimento e mérito são a mesma coisa.

Mas tenho uma segunda questão: não tenho visto bons argumentos no meio espírita quando se trata de reuniões espíritas voltadas para a cura. Tem-se informado aos assistidos que se eles tiverem “merecimento” obterão a cura, sem qualquer explicação mais detalhada a respeito. Consequentemente, as pessoas entendem dessa forma, e se não obtêm a cura no tratamento, atribuem isso à sua falta de merecimento, causando-lhes um mal-estar que acaba levando-as a virar as costas para o Espiritismo. Entendo que houve falha de quem fez o atendimento, pois o paciente deveria ser informado mais detalhadamente de situações que inviabilizam a cura que nada têm a ver com merecimento.

Então, Professor, gostaria de ter o seu entendimento sobre a distinção dos conceitos de mérito e merecimento, bem como sobre a necessidade de se melhorarem as explicações para o paciente nos casos específicos de tratamentos de cura.

Professor Cosme: Muito bons os dois pontos; mais uma vez, temos o problema da interpretação de uma palavra.

As palavras podem ser interpretadas de muitas maneiras diferentes, o que pode gerar confusões para as pessoas: fala-se uma coisa e a pessoa entende diferente. Por isso, muitas vezes, quando uma palavra começa a gerar dificuldades de interpretação, é melhor trocá-la, tentar ir por um outro caminho, porque por mais que se tente explicar, às vezes a confusão não se desfaz. Aconteceu mesmo, durante muito tempo, no próprio movimento espírita, com a palavra religião; deu tanta confusão: Espiritismo é religião, não é religião, não é religião, é religião, foi terrível; foi quando eu fiz um vídeo sobre religião, explicando o que é a polissemia das palavras, que uma mesma palavra pode ter muitos sentidos diferentes, porque a confusão era demais.

A palavra mérito é assim; ela é interpretada de mil maneiras diferentes, dependendo do contexto, e, às vezes, a interpretação pode gerar até revolta.

“Ah, então eu não mereço?”

Calma; o que se está chamando de “merece” ou “não merece”? E, às vezes, mesmo que se tente explicar para a pessoa ela não entende muito bem.

Então, pode-se dizer à pessoa que o processo de cura depende de vários fatores.

Depende de como a doença está em relação às provas e expiações do doente; ele poderá se livrar dessa doença, se ela for uma prova ou uma expiação vencidas, que o doente já superou conforme necessitava, e, portanto, não há necessidade de continuar sofrendo, e ele está em condições para que a doença seja curada. Ou então porque o doente recebeu o tratamento adequado e sua doença não constituía uma expiação, ela poderia nem ter acontecido, ela foi o resultado de uma imprudência do doente no presente, como a má alimentação, o abuso de algumas substâncias ou qualquer outra coisa; tendo resolvido as causas atuais — passou a ter alimentação sadia e deixou de praticar o que lhe causava a doença, por exemplo, — as causas da doença desapareceram junto com aquele mal; sendo apenas causas atuais que foram eliminadas, o doente obteve a cura.

Ou seja, quando as causas da doença são desta encarnação mesma, e o paciente resolve os maus hábitos que levaram a ela, procura a medicina, toma os remédios adequados, o paciente se cura, as causas foram eliminadas. Mas existem as doenças que têm causas anteriores, oriundas de outras encarnações, então a cura depende de mil fatores; por isso nem todo o mundo é curado, porque muitas vezes as causas anteriores continuam exigindo que a expiação para aquele Espírito continue, que ele ainda conviva mais tempo com aquele problema; nessa situação, ele tenta vários tratamentos e não dá certo.

Então, a pessoa precisa entender toda essa lógica, e não ficar preso a essa noção de mérito. É por isso que eu prefiro usar a palavra mérito no sentido da virtude, exatamente para evitar essa confusão em que a pessoa diz: “Ah, eu sou filho de Deus e eu estou sofrendo, então eu mereço sofrer.”

A pessoa não entende e tem uma carga de sentimento ruim. É o que se escuta dos materialistas, por exemplo; eu me lembro de Sponville se queixando: “Que Deus é esse que deixa as crianças sofrerem?” Então, a palavra pode gerar um sentimento ruim porque a pessoa não entendeu o conceito e o contexto de provas e expiações, nem que saúde e doença não têm a ver só com causas atuais. Muitas têm; aliás, a maioria tem! Alimentação inadequada, hábitos inadequados, condutas inadequadas, isso tudo gera doenças. São causas atuais que podem deixar de causar doenças se forem eliminadas.Mas existem doenças quetêm suas causas em vidas anteriores, por isso Kardec fala causas anteriores das aflições. E aí o processo é mais complexo.

É possível que aquele processo expiatório esteja no fim, mas também é possível que o processo expiatório não possa ser interrompido, e então a doença não poderá ser curada.

Então, no atendimento fraterno é necessário explicar como funciona o processo de saúde e doença, que tem causas anteriores e tem causas atuais; não se deve deixar a pessoa achando que merece ou não merece, porque a palavra, como eu falei, ela tem tantos sentidos e pode gerar muito mais emoções ruins, sentimentos ruins, do que esclarecer; e a pessoa sai do atendimento confusa, sem compreender realmente por que foi ou não foi curada após o tratamento.

“Como eu mereço perder meu filho? Meu filho morreu, por que não morreu o filho do outro? Por que foi meu filho?” Vejam que aí começa de fato a criar muita confusão, por falta de explicação.

Por isso não gosto muito de usar esse tipo de expressão, porque ela é polissêmica demais, e em cada contexto que é usada, ela produz emoções diferentes; é melhor evitar. E Kardec não é de usar essa expressão, talvez até por isso, porque ela pode gerar confusão; então é uma palavra que tem que usar com cuidado e, quando se usa, é importante evitar uma falta de compreensão.

O exemplo da palavra religião é típico. Todas as vezes que usamos a palavra religião, precisamos explicar que é filosoficamente falando, não dogmaticamente falando, porque senão gera confusão. E, mesmo assim, as pessoas não entendem. E, fora do movimento espírita, não entenderam nada.

Acreditam que o Espiritismo é uma religião dogmática, como qualquer outra religião. Na Academia, em qualquer lugar, nos debates, o Espiritismo é tratado como uma religião, como o Catolicismo, como o Budismo, como o Protestantismo, como uma religião, como outra qualquer. Não conseguem sequer ter a capacidade de perceber a diferença entre uma ciência e uma religião, ou uma religião no sentido filosófico do termo, e uma religião no sentido dogmático.

Esse nível de detalhe do sentido da palavra não chega para esse público. Isso é difícil. Por isso eu prefiro, quando trato disso, explicar o processo de saúde e doença, o que são as causas atuais e o que são as causas anteriores.

As causas anteriores dependem de várias outras coisas, e às vezes o sujeito não rompeu ainda o seu ciclo de expiação, por isso às vezes a doença só vai ter alívio, não vai ter cura; neste caso a pessoa vai obter apenas um alívio, forças para resistir, e a prece vai lhe dar forças para resistir, porque a cura talvez não chegue nessa vida. Então a pessoa precisa entender que essa situação de sofrimento faz parte da sua experiência de prova e expiação.

Mas isso é mais raro, a maior parte das doenças tem causas atuais. É o nosso abuso da vida corporal, nosso mau uso, seja da alimentação, da higiene ou de qualquer outra coisa, ou de sentimentos ruins que produzem doenças, os ódios, rancores, inveja, que às vezes se refletem no próprio corpo físico, danificando algum órgão; é uma causa atual, pode ser que o tratamento demore para ter eficiência com os recursos da medicina, com os recursos atuais. Então no campo da saúde da doença é melhor explicar mesmo todo esse aparato mais complexo para que a pessoa entenda que se ela não foi curada, podem ter várias razões.

— Assista à videoaula sobre as “Causas atuais das aflições” no KardecPlay!

— Assista à palestra “A eficácia da prece” no KardecPlay!


*Observações. As opiniões emitidas por participantes são responsabilidade de seus autores e podem não refletir a linha editorial do IDEAK. O texto acima foi retirado de uma exposição de viva voz. Como todo ensino oral, esta colocação pode não ser tão rigorosa com os sentidos das palavras, por efeito da proximidade entre as pessoas que conversam. É preciso, por isso, considerar que as definições dadas podem ser provisórias, e que alguns termos são usados em sentido figurado. Em todo caso, o fundo da mensagem não deixa equívocos.

Cosme Massi é Físico, Doutor e Mestre em Lógica e Filosofia da Ciência pela UNICAMP. Foi professor, pró-reitor e diretor de diversas universidades no Brasil. Ganhador do Prêmio Moinho Santista em Lógica Matemática. Escritor, palestrante e estudioso das obras e do pensamento de Allan Kardec há mais de 30 anos. Idealizador do IDEAK (Instituto de Divulgação Espírita Allan Kardec) e da KARDECPEDIA, plataforma grátis para estudos das obras de Allan Kardec. Reúne mais de duzentas aulas de Espiritismo na plataforma KARDECPlay.


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