"Voltar a Kardec: Uma vida a desvendar."
JORNAL ESPÍRITA
DIRECTOR | PAULO COSTEIRA
ANO XL | N.º 476 | FEVEREIRO 2026
ENTREVISTA | COSME MASSI — PARTE I
“VOLTAR A KARDEC: UMA VIDA DESVENDAR O CODIFICADOR”
POR FILIPA RIBEIRO
Físico, filósofo e espírita desde os 14 anos, Cosme Massi construiu um percurso onde a ciência não contradiz a espiritualidade — antes a aprofunda. Na primeira parte desta entrevista, ficamos a conhecer uma figura singular no panorama espírita, palestrante e fundador da Kardecpedia, para quem a obra do codificador não tem lacunas para preencher, apenas páginas por ler. Uma conversa sobre génio, método e o valor de um legado que ainda não soubemos merecer, já que estamos perante a primeira e única ciência da alma construída de forma consistente, coerente e abrangente. Massi revela ainda como a leitura das obras de Kardec em francês lhe abriu os olhos para uma grandiosidade que as traduções nem sempre mostram, por que razão a Revista Espírita é “uma obra monumental a que não se dá o devido valor” — e como tudo isso culminou na criação da Kardecpedia, uma plataforma gratuita que reúne e interliga toda a obra do codificador do Espiritismo.
Jornal Espírita: Começou a estudar Espiritismo aos 14 anos. Olhando para o seu percurso, considera ser uma vantagem ter iniciado tão cedo?
Cosme Massi: Sim, com certeza. Fez a diferença quando fui para a Faculdade estudar Física. Geralmente, as pessoas que optam por estudos de Ciência têm dificuldade em aceitar teses espiritualistas, por isso foi muito positivo todo o conhecimento teórico que já tinha do Espiritismo, mas também a experiência de já ter participado em reuniões mediúnicas, de conhecer outros médiuns e toda a realidade do fenómeno espírita. Os meus estudos em Física e, mais tarde, em Filosofia só me deram mais elementos para perceber que o trabalho de Kardec era cientificamente muito bem construído.
J.E.: Desde essa altura até ao palestrante que conhecemos hoje, que marcos principais identifica no seu percurso?
Cosme Massi: O principal marco foi, depois de me ter formado em Física e entrei no mestrado, ter podido estudar as obras de Kardec em Francês, mergulhando nos textos originais. Isso permitiu-me perceber que a obra de Kardec é muito mais grandiosa do que as traduções revelam, pois há alguns equívocos que encontramos nas traduções e que só se esclarecem com uma leitura mais profunda. Quanto mais mergulhamos na obra, mais percebemos como o texto foi muito bem escrito e muito bem fundamentado. O segundo grande marco foi o estudo da Revista Espírita, pois quando estudamos os principais livros de Kardec (incluindo o livro O que é o Espiritismo) talvez não nos apercebamos de como se construiu a ciência espírita, mas o estudo da Revista Espírita revela todo esse processo de construção com o apoio dos espíritos. E aí percebemos o capítulo III do Livro dos Médiuns [“Método”] quando Kardec sugere as obras que um espírita deveria estudar e refere a Revista Espírita como obra fundamental. O estudo da Revista permite entender as questões com maior profundidade e valorizar mais o trabalho de Kardec; é uma obra monumental a que não se dá o devido valor. Por último, a possibilidade de construir a Kardecpedia também foi um marco muito importante: o momento em que percebemos que deveríamos disponibilizar as obras de Kardec relacionadas entre si numa só plataforma de acesso gratuito.
J.E.: A Kardecpedia ao focar essa intertextualidade na obra de Kardec acaba por evidenciar a própria coerência interna do Espiritismo.
Cosme Massi: Exactamente. Descobrimos essa coerência interna, esses pontos de ligação entre uma obra e outra – por exemplo, há questões como a possessão, na qual Kardec faz um ajuste entre O Livro dos Médiuns e A Génese, ajustes entre as diferentes edições — que revelam uma consistência doutrinária impressionante e descortinam o próprio processo de construção da obra em si. Ao longo desse processo de estudar as vinte e duas obras de Kardec é que percebemos o trabalho monumental de Kardec ao construir a primeira ciência da alma bem elaborada. Antes de Kardec, ninguém construiu uma ciência da alma. Costumo dizer que a primeira Psicologia — no sentido etimológico e epistemológico da palavra — foi construída por Kardec. A Psicologia dominante na Academia é, maioritariamente, materialista e acredita que tudo se resolve compreendendo a estrutura cerebral, algo que foi reforçado com a emergência das neurociências. Porém, a primeira ciência da alma bem construída de forma consistente é o Espiritismo, cujos princípios fundamentais estão presentes em todos os pontos mais importantes dessa ciência, o que é outro mérito de Kardec. A visão de Ciência dele foi tão ampla e tão completa que não deixou os princípios fundamentais de fora, ainda que deixe espaço para princípios complementares com as disciplinas de fronteira.
J.E.: Reitera que as suas ideias não são verdades indiscutíveis, mas propostas para reflexão. Recebe críticas do meio espírita também?
Cosme Massi: Sim, foi ele quem construiu essa Psicologia que já está pronta sem qualquer necessidade de acrescentar mais alguma coisa. Claro que muitos psicólogos não vão concordar com isso porque entendem a alma de um ponto de vista cartesiano e não espiritual/perispiritual. Tudo o que é necessário para compreender a alma, como se desenvolve, como interage com o mundo corporal, como existe após a morte e todas as leis que regulam a vida da alma nos dois planos, foi estabelecido por Kardec. É uma Psicologia que vai ao detalhe e é extraordinária. Podemos falar de novas aplicações; por exemplo, quando a alma reencarna, o corpo bloqueia parcialmente a memória. Este é um ponto que pode ser explorado quando as ciências — talvez as neurociências — se desenvolverem mais. Como se dá esse bloqueio? É a este nível que se pode encontrar a intersecção entre o Espiritismo e outras ciências e aí há muito trabalho para fazer.
J.E.: Referia a abrangência de pensamento de Kardec. É essa característica que mais o fascina nele enquanto pensador? Quais são as principais diferenças que identifica entre ele e outros pensadores, por exemplo, do século XIX?
Cosme Massi: A grandiosidade de Kardec, e por isso ele foi muito bem escolhido, foi perceber, desde o início, que estava diante de factos novos que precisavam de ser estudados sob um ponto de vista diferente. Kardec não teve o preconceito comum a muitos estudiosos que querem reduzir a ciência ao conhecimento que dominam. Essa é, talvez, a grande diferença entre Kardec e vários outros pensadores: eles não tiveram a abertura de pensamento nem a capacidade de reconhecer a necessidade de uma metodologia diferente para analisar aqueles fenómenos que não podiam ser analisados à luz do que se faz nas ciências naturais. Kardec percebeu como agir metodologicamente para estudar os novos factos sem se reduzir aos padrões das ciências conhecidas. É essa abertura de pensamento que caracteriza um génio; Kardec foi genial e sem preconceitos, o que é muito raro. O século XIX não soube valorizar isso; até hoje, muitos espíritas não conseguem dar à obra de Kardec o valor que deveriam dar. Encontramos, no século XIX, discursos de grandes espíritas a dizerem que a ciência espírita precisava ainda de ser construída quando sabemos que já o tinha sido por Kardec e pelos espíritos que o auxiliaram. Camille Flamarion, um cientista notável, no seu discurso junto ao túmulo de Kardec diz especificamente que a ciência espírita tinha de ser construída; nem ele percebeu o trabalho que tinha sido feito, talvez por ser das ciências naturais.
J.E.: Hoje em dia, há quem diga que precisa de ser atualizada...
Cosme Massi: O que seria uma perda de tempo. Imagine que faríamos isso com as grandes teorias. Não é por aí. Vamos, antes, aprofundar o estudo, aprender a metodologia, estudar como Kardec construiu a doutrina espírita e vamos perceber que agora é o tempo de aplicar esta ciência espírita em novos campos.
J.E.: Há dois argumentos principais que costumam ser usados para defender o alegado caráter não científico da doutrina espírita. O primeiro é este: o princípio da concordância universal dos espíritos, usado por Kardec, pode ser aceite como validação de conhecimento?
Cosme Massi: Essa questão é muito boa e eu explico esse princípio no meu livro Os Espíritos e os Homens. Penso que existiram muitos equívocos na leitura do texto de Kardec sobre a concordância universal do ensino dos espíritos. Nesse texto do Evangelho Segundo o Espiritismo — e que está também na Revista Espírita —, há dois itens importantes a destacar: o primeiro critério da concordância universal é a análise lógica de tudo o que vem dos espíritos comparativamente com o que já está estabelecido, ou seja, se o que é ditado mediunicamente se sustenta quando confrontado com o que já está comprovado, se não há contradições lógicas. Isto é feito em várias ciências quando se dão propostas novas. O segundo critério requer a manifestação espontânea dos espíritos para transmitir qualquer nova ideia. O problema é que muita gente pensou que a concordância universal era pegar numa ideia proposta e convocar espíritos em vários lugares para a discutirem. Não é isso. Se uma lei nova tivesse de ser proposta pelos Espíritos, isso ocorreria espontaneamente, o que, aliás, aconteceu ao longo da construção da ciência espírita, como Kardec relatou. Não se trata de submeter uma ideia a vários espíritos e ver se todos aprovaram... isso não é ciência, não se faz por maioria ou por voto. O que se verificou é que, em todos os lugares, os espíritos manifestaram-se espontaneamente sobre todos os princípios fundamentais do Espiritismo. A Revista Espírita é crucial para ver todo esse processo. Por isso, Kardec diz que o Espiritismo é uma revelação divina, porque foi uma iniciativa dos espíritos e científica, pois a elaboração é fruto do trabalho do homem.
J.E.: O segundo argumento remete para o que se entende como prova e evidência. Há até quem ache que Kardec confunde evidência empírica com testemunho...
Cosme Massi: Primeiro, há um problema quando se exige de uma ciência o que não faz parte da sua própria construção. Imagine se pedíssemos a um economista para provar um conceito económico com factos... Ele iria reproduzir uma inflação? Criar um conflito social? Então, cada ciência tem uma metodologia própria a partir do conjunto de fenómenos que investiga. O que é evidência e o que é prova para uma ciência não se tira de outra. Prova em Matemática é uma coisa, em Física, Química ou Biologia é outra. É a própria ciência, com a sua metodologia, que vai permitir entender a forma como devemos realizar as experiências, o que serve como prova ou não. Desde o início, Kardec entendeu que se estamos perante fenómenos inteligentes era preciso que estes fossem o elemento-chave. Vale mais focar nesses conteúdos inteligentes do que em provas físicas. Quando um médium produz uma carta de um pai sem conhecimento prévio dos envolvidos, com detalhes só conhecidos pela família do espírito que se comunica, isso é uma evidência muito forte. Como explicamos isso? Num fenómeno físico já é mais fácil suscitar fraudes, algo que já era comum no tempo de Kardec. Daí a distinção clara, na doutrina, entre fenómenos físicos e inteligentes, tendo sido estes últimos os escolhidos por Kardec para construir a ciência da alma. Ele teve essa lucidez e sempre valorizou bastante os fenómenos inteligentes sem desprezar os restantes. Na Revista Espírita, Kardec descreve inúmeros fenómenos inteligentes como evidência para todos os princípios do Espiritismo e não apenas da existência da alma; sem isso, seria apenas uma repetição de qualquer Espiritualismo.
J.E.: Refere que Kardec foi muito bem escolhido para a sua missão. Ele tinha formação sólida em lógica e método científico. Considera que a codificação espírita denota mais a formação científica ou essa preparação espiritual de Kardec?
Cosme Massi: Penso que as duas coisas. Ele veio como espírito muito bem preparado em ciências e filosofia, mas sabemos que o corpo cria bloqueios e limitações, pelo que terá precisado de passar por essa formação para eliminar esses bloqueios e ter acesso aos seus recursos. Além disso, ele teria o papel de escrever essa ciência numa língua humana que foi o Francês. Algo escrito em Paris no século XIX tinha muito mais probabilidade de percorrer o mundo inteiro. Kardec dominava muito bem a língua francesa, escreveu inclusivamente livros de gramática. Ele passou, pois, por uma preparação prévia com Pestalozzi e que o ajudou a mobilizar o que já trazia enquanto espírito. É muito raro alguém ter a capacidade didática que ele demonstrou. Muitas vezes lemos obras de alguns filósofos e desistimos na primeira página; com Kardec isso não acontece. Além disso, ao longo da vida dele, percebemos qualidades morais extraordinárias e, note-se, ele só conheceu o Espiritismo após os 50 anos, já depois de ter passado pela maior parte dos problemas que o corpo oferece à alma. Enfim, Deus sabe o que faz. Nenhuma filosofia antes de Kardec apresentou respostas tão bem construídas e tão bem explicadas para as questões mais importantes que o homem já formulou sobre si mesmo.

